
"- A Lua era uma princesa que vivia na Terra, num grande palácio, mais lindo que tudo o que há no mundo. Tinha muitas aias...
- Que é isso?
- São criadas, Linda. Os seus cabelos era de oiro, muito compridos, tão compridos que, quando andava, era como se levasse um manto atrás dela. Não havia na Terra uma cara assim. Cresceu e fez-se mulher. Um dia, o pai quis casá-la. Mandou ministros por todo o mundo a dizer a nova: 'Vai casar a princesa Lua!' Encheram-se todos os caminhos que davam ao palácio. Eram carros, cavalos brancos...
- Porquê cavalos brancos?...
- São mais bonitos.
- Ah!...
- Até veio gente a pé de casa do Inferno para a princesa escolher marido. Foi pondo de banda, pondo de banda, e no fim ficaram dois.
(...)
- Um era rei. O mais rico de todo o mundo. Rei e feiticeiro. Punha flores onde queria, fazia as árvores dar folhas e frutos lindos.
- Quem era?!...
- Era o Sol.
- Ah!...
- O outro era um pobre de Cristo, vestido de azul, de um azul que ninguém conhecia.
- Era o Mar?...
- Pois era. Esse era o Mar. E a princesa escolheu o Mar. O pai gostava do Sol. Teimou com ela. Mandou vir fadas e nenhuma conseguiu voltar-lhe a ideia. Meteu-a num quarto e não houve luz na Terra não sei por quantos dias. Depois mandou prender o mar com correntes de ferro. tão grossas, tão grossas que cada argola... eu sei lá!
- Mais grossas que um boi?...
- Quantas vezes!
(...)
- Bem amarrado, o Mar aquietou-se, à espera. O pai da princesa entregou-a ao Sol e ele levou-a para o seu reino.
- Onde é?...
- Lá em cima, no Céu... Mas o Mar, quando soube, enfureceu-se. Gritou, abriu os braços e partiu as correntes. E espalhou-se por todo o mundo à procura dela. Fez-se um girante, meigo como ninguém; mas quando se zanga, nada há que o aquiete senão a Lua. Só ela, quando o namora lá de riba, o faz brando.
- E o Sol casou com ela?
- Nunca mais lhe pôs a vista em cima. O seu reino é grande e ela fugiu-lhe. Se ele está num lado, ela aparece no outro, para ver o Mar. Ela gosta é do Mar. E as estrelas que andam à volta dela são os guardar que o Sol mandou para a agarrar. Mas nenhuma lhe deita a mão, porque as estrelas gostam também do pobre vestido de azul. E há uma, a Estrela da Manhã, que vem sempre avisá-los, mal adivinha o Sol. Então, a Lua abala e o Mar vai vê-la no outro lado da Terra."
Alves Redol